Crônica de uma morte anunciada: a torpeza humana atemporal

19:18

Autor: Gabril García Márquez
Editora: Record
Nº de páginas: 176
Sinopse: Neste livro, no sonho que Santiago Nasar acaba de ter, Plácida Linero - sua mãe, especialista em interpretar sonhos alheios - não pressentiu nada macabro. No entanto, de madrugada, Santiago vai ao encontro de uma morte certa. Passou uma noite de vinho e mulheres, rindo e compartilhando da devassidão com aqueles que serão seus carrascos. Assistiu às bodas de Angela Vicario, a noiva devolvida por não ter se mantido virgem até o casamento, e que mencionou o nome de Santiago quando quiseram saber, dela, a verdade.







Crônica de uma Morte Anunciada é um livro do autor colombiano Gabriel García Márquez publicado em meados dos anos 1980. Nele, temos uma narrativa contada em primeira pessoa por um personagem não onisciente que conta a história em uma estrutura prática quase que jornalística. O tema não é tanto a morte do jovem Santiago Nasar, mas sim a forma como toda o vilarejo em que ele morava sabia que ele iria morrer naquela manhã em que o bispo chegava.

E essa talvez seja a característica que mais se sobressai neste livro. Seguimos os caminhos de Nasar apenas no início; rapidamente o foco da narrativa se altera para a questão da informação que praticamente cada cidadão recebeu antes da morte do homem que conheciam desde pequeno e como nenhuma dessas pessoas o alertou ou impediu de alguma forma que o assassinato ocorresse. Nesse meio tempo também vamos descobrindo o motivo para o crime e a parcela de atuação que cada personagem teve no fato.

Uma característica que permeou o desenvolvimento dessa narrativa foi a forma como os personagens são construídos, e essa estratégia tem duas facetas. A apresentação e caracterização dos personagens ocorre de forma rápida, simples e completa. Pequenas informações, traços e sequência de ações conseguiam apontar aquilo que era essencial para se conhecer o personagem e entender suas ações dentro da trama.

Entretanto, essa construção rápida também faz com que a exploração das características de alguns personagens, em especial Nasar, seja algo que falta na história. O aprofundamento das questões dos personagens não é algo explorado. E talvez isso se deva a necessidade de colocar em ação diversos personagens e suas visões e participações na morte anunciada na construção mais marcante da obra: o aspecto torpe e falho da natureza humana, que colocou a tradição e os costumes acima da vida de um homem.

É incrível como Gabriel García Márquez expõe o nível de torpes humana. A cada capítulo, ele deixa claro com uma narrativa simples as nuances do comportamento humano é algo a ser reconhecido. São com pequenos detalhes, através de ações ou observações astutas do narrador onisciente da obra que é desenhado aos poucos o mosaico dos traços que o autor busca evidenciar neste livro. E é essa construção através dos detalhes e dos fatos que normalmente seriam considerados menores em um romance que faz com que essa crônica seja o catalisador de reflexões profundas em relação à vida em sociedade, ao comportamento humano e a força que os costumes e tradições exercem sobre cada indivíduo.

O assassinato de Nasar, fica evidente durante toda a obra, envolve simultaneamente questões particulares e públicas. As motivações assim como o ato em si se relacionam diretamente com aquilo que a sociedade em que esses personagens estão envolvidos esperam de cada um deles. E essas circunstâncias, apesar de chocarem e alertarem, de alguma forma, o leitor para os extremos que podem ser atingidos, espelha a constituição de cada um como parte de uma comunidade. As crenças, as tradições e mesmo as ações são influenciadas pelo ambiente em que se está. Assim, naquele ambiente, a morte de Nasar fazia completo e nenhum sentido segundo a realidade em que eles estavam mergulhados.

A atmosfera de iminente mudança é uma das características que percorre esse livro. A cada momento que a narrativa acompanhava um morador da vila que poderia impedir o assassinato também mostrava a necessidade de uma mudança. A falta de lógica no que estava acontecendo colocava uma mudança necessária e é esse desejo que parece latente em cada um deles. Esse momento de transição é o que permite que o tom simples, explicativo e de relato dos fatos leve a reflexões sobre os elementos definidores de cada aspecto da vida social e individual.

Crônica de uma morte anunciada apesar de ser um retrato de uma determinada sociedade em determinado tempo e espaço, não deixa de trabalhar questões que são centrais para qualquer conjunto humano. Afinal, tudo e todos podem se organizar realizar alguns atos que seguem, em maior ou menor grau, algum costume ou tradição. E, assim, a obra de Gabriel García Márquez se faz atemporal.


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