Fama e Anonimato - Gay Talese

13:26

Editora: Companhia das Letras
Nº de páginas: 536
Sinopse: No início dos anos 60, o repórter Gay Talese saiu pela ruas de Nova York e descobriu uma segunda Estátua da Liberdade, cuja única função seria confundir os desavisados. Constatou também que os nova-iorquinos piscavam em média 28 vezes por segundo; que sob chuva o movimento do comércio caía de 15% a 20%, mas menos gente se matava nesses dias; que um mergulhador ganhava a vida recuperando objetos perdidos no fundo da baía de Nova York; que as prostitutas promoviam anualmente um baile em homenagem aos cafetães da cidade, e que as faxineiras do Empire State encontravam mais ou menos 5 mil dólares por ano nas 3 mil salas do edifício. Fama e anonimato está repleto de informações assim: aparentemente inúteis, mas que, nas mãos de um escritor de primeira categoria, imprimem a textura real da cidade e o rosto de seus habitantes. Nas três séries de reportagens reunidas neste livro - a primeira, sobre o estranho universo urbano que é Nova York; a segunda, sobre a saga da construção da ponte Verrazzano-Narrows, e a terceira, sobre artistas e esportistas americanos -, Talese abriu a picada do que mais tarde seria batizado de "novo jornalismo" ou jornalismo literário, um tipo de reportagem que alia um texto de alta qualidade a um olhar que foge aos lugares-comuns.



Um dos representantes mais icônicos do movimento conhecido como New Journalism é o repórter Gay Talese. O jornalista americano acumulou em seu currículo, a partir dos anos 1950, experiências no jornal The New York Times e na revista Esquire. Além disso, publicou livros de sucesso, entre a crítica e o público, como O reino e o poder e A mulher do próximo. A obra Fama e Anonimato é uma coletânea de três séries de reportagem que representam o jornalismo praticado no século XX e a escrita do Talese durante momentos decisivos de sua carreira.

O livro é dividido em três partes: Nova York: a jornada de um serendipitoso; a ponte e excursão ao interior. E, já no prefácio, escrito em 1992, o autor ressalta as diferenças de tom, linguagem, estrutura narrativa, sofisticação e presença de elementos literários que podem ser encontrados nos conjuntos de textos. Isso se deve, como o mesmo aponta, às diferentes épocas em que foram produzidas as reportagens, o que proporciona uma visão, ainda que um pouco simplificada, do desenvolvimento do novo estilo jornalístico na imprensa norte-americana.

Na primeira parte de Fama e Anonimato, o leitor é levado em um tour por Nova York. A cidade que é apresentada é aquela dos olhos de Talese. Com um olhar atento e juvenil, as características, as nuances, as peculiaridades e as contradições da metrópole durante 1960 são descritas e o perfil da cidade vai se delineando. Através de uma escrita leve, temas diferentes e personagens inusitados, Nova York: a jornada de um serendipitoso demonstra tudo aquilo que as pessoas desconsideram no retrato de Nova York. Entretanto, esses aspectos não poderiam ser mais parte da identidade da cidade se tentassem, seja o chofer que tinha um chofer, os idosos esquecidos, os edifícios decadentes, as garotas no trem ou os detetives culturais das bibliotecas.

Um trabalho jornalístico mais intenso e cuidadoso é encontrado nas dez contos-reportagens que fazem parte de A ponte. As entrevistas e acompanhamentos com o grupo de homens que faziam parte da construção da Verrazano-Narrows, uma ponte entre Staten Island e o Brooklyn, durou, em média, três anos. E essa inserção na paisagem da cidade é o acontecimento factual que serve de base para que a vida de pessoas comuns – engenheiros, moradores do local e trabalhadores –, seja retratada e revelada ao público. Nesse sentido, os principais personagens dessa narrativa são os boomers, que são operários nômades que acompanham os movimentos da construção civil pelos Estados Unidos e pelo mundo, e a vida profissional e pessoal deles.

O retrato do universo que consiste na construção de pontes no país possibilitou ao jornalista abordar os mais diversos temas com uma proximidade que faz com que o relato ganhe nuances únicas. Ao tratar do trabalho e das relações, seja entre os trabalhadores ou entre os engenheiros, o escritor consegue evidenciar as dificuldades que tal campo apresenta. A facilidade com que um erro pode destruir uma carreira é a mesma que pode gerar uma tragédia, e essa é uma realidade que está claramente documentada e relatada na coletânea.

As duas primeiras partes desse livro contêm um caráter muito mais forte de unidade que a terceira e, sendo assim, pode-se observar constâncias internas de elementos narrativos e literários. Na parte I, apesar das dezenas de assuntos tratados e da falta de cronologia entre os contos, é fácil observar uma união entre as temáticas que trabalham para construir o tema: Nova York. E na parte II ocorre quase o mesmo. As temáticas exploradas em cada capítulo, aqui de forma muito mais clara, também apontam para o tema geral tratados, entretanto dois novos elementos são inseridos. Uma certa cronologia é respeitada ao contar a história da ponte e dos boomers, mas isso não impede que a narrativa continue a ser dinâmica no quesito temporal, pelo contrário. Através da digressão, novos personagens e situações, sempre com alguma conexão ao atual assunto, são apresentados e explorados nos textos.

Já a terceira a parte do livro, Excursão ao interior, apresenta o perfil de pessoas notáveis da época em que o autor estava inserido. De Frank Sinatra ao ambiente de trabalho da revista VOGUE, Gay Talese consegue unir o público com o privado, assim como retratar personalidades, sentimentos, experiências e vivências das mais variadas com uma veracidade que leva o leitor a se perguntar como ele poderia saber de tudo aquilo, ter toda aquela informação. Ele possibilita que a pessoa ou situação seja realmente exposta, conhecida.

As palavras do repórter e a forma como ele as utiliza ao fazer o perfil dos famosos faz com que seja fácil reconhecer o trabalho jornalístico ali presente. Em alguns momentos ele não só indica sua presença a partir de elementos gramaticais, como também a utiliza como um estilo de narrativa, fazendo com que o texto se aproxime incrivelmente de seu público. É quase como se o leitor é quem estivesse tendo uma conversa ou observando os personagens e os fatos narrados; a inserção é feita de forma natural, habilidosa e muito agradável.

Esse sentimento é, na verdade, algo que está presente em todo o livro, seja ao contar os pequenos segredos de Nova York e seus habitantes, a vida dos boomers ou ao expor os aspectos pessoais da vida das celebridades. Isso ocorre de forma tão natural que assemelhasse ao caráter onisciente dos narradores da literatura do romance realista do século XIX. Mas a narrativa de Fama e Anonimato possui algo a mais, talvez aquilo que Talese creditaria ao insight necessário para realmente contar uma história.

Além da mais que válida experiência literária, é este “estalo” que o autor aponta no apêndice da edição que leva ao que pode ser mais importante em Fama e Anonimato para atuais e futuros jornalistas. É a sua defesa, muito mais do que argumentada e comprovada por seus trabalhos nessa obra, que fundamenta sua ideia de que o New Journalism deve ser respeitado por seu caráter de veracidade apesar de seus elementos estruturais e narrativos. Sua posição é de que esse estilo nada mais é do que uma intensificação dos princípios do jornalismo clássico, descrição detalhada dos fatos e das personalidades, fidelidade ao trabalho de campo e precisão, que continuam a ser os parâmetros a serem alcançados. O que mais tem-se a aprender com Gay Talese é que o texto jornalístico pode e precisa ser muito mais atrativo para o leitor.


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21 comentários

  1. Oiii, por mais que o livro não faça o gênero que costumo seguir, adoraria ter a oportunidade de conhecer e quem sabia iria gostar, não é?
    Beijão

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  2. Olá!
    Eu sempre fui meio ligada em jornalismo, cogitei muitas vezes em ser jornalista, mas acredito que esse sentimento murchou em mim.
    Mas achei o livro bastante interessante. Amo New York, então claro que iria adorar ver a cidade por outros olhos.
    Abraço!

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  3. Oooi!
    Bom, confesso que não achei muito interessante, mas acho que é porque não faz muito do meu tipo de leitura - AINDA! Mas como fala de jornalismo e etc, fiquei meio mexida haha Flores no Outono

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  4. Parece ser uma obra e tanto!
    Não faz muito meu gênero,mas é impossível não reconhecer que é um trabalho incrível.
    Parabéns pela resenha e post.
    Abraços;

    http://estantelivrainos.blogspot.com.br

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  5. Esse livro é um dos meus traumas. Na faculdade de jornalismo, meus professores sempre citavam esses perfis como exemplo. Em especial o do Frank Sinatra, se me lembro bem. Pena que eu tinha que ler 2342 livros ao mesmo tempo durante as aulas e acabei não conseguindo ler esse inteiro e nem lembro direito do que li... Acho que merece uma segunda chance... Ótimo post!

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  6. Olá; eu ainda não conhecia esse livro mas pela sua resenha e pela sinopse, creio que seja uma obra que eu gostaria muito de ler. Eu gosto de matérias jornalísticas que tenham um tom ou um assunto não tão formal.

    http://petalasdeliberdade.blogspot.com.br/

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  7. Olá,
    Faz um bom tempo que não leio nada ligado ao jornalismo, mas eu gosto deste formato de livro. Seja pelas curiosidades, ou toda pesquisa envolvida este gênero literário me atrai.
    Gostei de ter uma cronologia definida, acho importante nesse tipo de livro.

    http://euinsisto.com.br

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  8. Não é minha leitura, mas eu achei o tema que o livro aborda muito interessante e eu leria mais por curiosidade mesmo do que por gosto por esse tipo de literatura.

    http://laoliphant.com.br/

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  9. Hum, o livro é interessante. Tem uma premissa legal e acho bacana essa visão pelos olhos do jornalismo porém no momento estou buscando outros tipos de leitura. Quem sabe um.dia?
    Bj
    Camila Bernardini Coelho

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  10. Olha, eu tenho lá meus preconceitos com textos mais jornalísticos, mas pela sua resenha, o livro pareceu bem interessante. Tô pensando em ler, amo esse tipo de coisa do lado babado da fama hahaha

    http://fluorescente.co/

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  11. Parece interessante, mas não leria por ser algo que não estou habituado a ler e provavelmente não iria gostar...

    Abraços & até!!

    lendoferozmente.blogspot.com

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  12. Oi tudo bem
    Ele parece ser uma personalidade e pessoas com essa experiência de vida sempre nos surpreendem com textos muito ricos. Mas confesso que não é o tipo de livro que tenho costume de ler. Se um dia ele parar em minhas mãos, darei uma oportunidade. Sua resenha ficou ótima.
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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  13. Oie,

    Eu não conhecia a obra. E o gênero não é um dos que eu leio, mas ele me despertou uma certa curiosidade. Já pensei em fazer Jornalismo, e tenho certeza que esse meu lado aflorou lendo a sua resenha. O livro já está na minha listinha.

    Mayla

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  14. Ei, tudo bem?
    O livro é bem diferente em sua proposta, e creio que vai agradar muitas pessoas que gostam desse estilo. Mas o livro não me chamou atenção, e a premissa só mostrou que eu não ia curtir o livro. Mas fico feliz que tenha gostado.

    Beijos, Gabi
    Reino da Loucura

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  15. Oii,

    Estou aprendendo a gostar de livros desse tipo, mais jornalísticos.
    Eles são sempre rico de informações. Gostei da proposta desse livro e dos detalhes dele na resenha. Estou bem curiosa em conhece-lo.

    Beijos

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  16. Não faz o meu tipo, porém quem sabe no futuro né? Mas sua postagem sobre ele fiou muito boa, porém não faz mesmo o meu tipo.

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  17. Oiee, tudo bem?

    Sou jornalista e reconheço o Gay Talese como uma grande personalidade do ramo. Me lembro de ter lido um outro livro dele na faculdade. Mas acho que é bem isso, os livros do Gay são daqueles que eu leria para a faculdade ou para fazer algum trabalho especifico, não no dia a dia. Sua resenha ficou ótima e bem explicativa, mas ainda assim eu não leria o livro.

    beijos
    Kel
    www.porumaboaleitura.com.br

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  18. Oe, tudo bom?
    Ainda não conhecia esse livro, e não consegui me interessar por ele. Não faz muito meu estilo de leitura. Quem sabe, um dia eu venha a ler.
    Adorei sua resenha. Até mais!

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  19. Oii, tudo bem?
    Bom, o livro não faz meu gênero jornalismo e coisa do tipo, então essa dica eu passo, mas que bom que você gostou do livro.

    Beijos

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  20. Oi!
    Não é meu tipo de livro, mas fiquei muito curioso para lê-lo, acho que iria tirar muitas coisas proveitosas dele.

    Beijos
    http://ummundochamadolivros.blogspot.com/

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  21. Oi!
    Não sou muito chegada ao gênero e não sei se lerei a obra, mas me interessou o fato de retratar New York com outros olhos, sou fascinada por essa cidade e gostaria de saber mais sobre ela.
    Abraços,
    Andy - StarBooks

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