A Garota Dinamarquesa

20:12

Título Original: The Danish Girl
Gênero: Biografia, Drama
Direção: Tom Hooper
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander
Duração: 1h59min
Sinopse: Cinebiografia de Lili Elber (Eddie Redmayne), que nasce Einar Mogens Wegener e foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. Em foco o relacionamento amoroso do pintor dinamarquês com Gerda (Alicia Vikander) e sua descoberta como mulher. (Fonte: AdoroCinema)











A Garota Dinamarquesa conta a história de Lili Elber, supostamente a primeira mulher transexual a realizar uma cirurgia para mudar seu gênero. O filme é dirigido por Tom Hooper e conta com a roteirista Lucinda Coxon. O longa se passa no início do século XIX (década de 1920) e, embora baseado em fatos reais, conta com elementos ficcionais, assim como o livro homônimo, de David Ebershoff, lançado pela editora Rocco.

O primeiro nome de Lili foi Einar Wegener e, identificando-se dessa forma, sua vida seguia dentro dos padrões europeus até o dia em que sua mulher, Gerda, lhe pediu para ajudá-la com uma pintura inacabada de uma bailarina. Mesmo relutante, Einar coloca as sapatilhas e as meias que iriam compor a obra e posa. Depois disso, como uma brincadeira entre o casal para enganar os amigos e conhecidos, ele se veste como Lili pela primeira vez para uma festa. É a partir desse momento que sua jornada de auto reflexão e autoconhecimento começam e Lili assume o comando.

O foco principal do filme é nas questões pessoais da transexualidade. Ou seja, os processos de autoconhecimento que Lili teve que passar para se assumir como uma mulher e deixar a identidade masculina de lado e, principalmente, a repercussão disso em seu relacionamento com sua esposa, em sua carreira e em sua forma de se relacionar com o mundo.


Sem dúvida nenhuma, o ponto mais forte de A Garota Dinamarquesa como uma obra cinematográfica é a força de seus personagens e da interpretação que eles ganharam na produção. Os dois personagens que são centrais à trama não são apenas bem construídos como contam também com atuações que só os enriquecem ainda mais. O modo como Eddie Redmayne interpreta Lili, ou ainda Einar no momento de suas descobertas, de suas transições, é algo incrível. Cada olhar, cada movimento, cada sentença dita ou não dita possui uma intensidade única, possui um tom real, algumas vezes de incerteza e confusão e outras de determinação, de vontade. E isso ocorre durante todo o filme.

Nesse aspecto, Gerda e sua intérprete, Alicia Vikander, não ficam para trás, muito pelo contrário. Gerda é uma personagem incrível, que proporciona ao filme uma carga emocional descomunal e nas mais diferentes direções. De um extremo a outro, ela passa pela confusão e descrença ao descobrir que o marido realmente se enxerga como uma mulher e quer viver assim até o inevitável amor e amizade que ela continua a sentir por ele, e a atuação de Vikander é impressionante em todos os momentos. A personagem é tão bem construída quanto Lili e apresenta uma qualidade empática enorme também, além do fato do filme ser centrado na relação das duas mulheres fazer com que fique óbvio para o público a importância dela para a história, que também é facilmente igualável à de Lili.


O filme consegue demonstrar de maneira delicada, sensível e cuidadosa a complexidade que está presente nas questões de identidade de gênero. Delicadeza essa que o tema merece e que que necessita, ainda mais tendo em mente a época em que a história e os personagens estão inseridos. Mas essa característica do longa, por mais que possa ser apreciada, fez com que certos elementos e aspectos acabassem sendo negligenciados. Faltou ao filme um ângulo mais duro, mais realista sobre as implicações que questões de gênero poderiam levantar - e ainda levantam - socialmente. O mais feio e o mais difícil, como o preconceito, a falta de conhecimento e de compreensão, de ser uma transexual não foi algo abordado, pelo menos não em uma profundidade suficiente para demonstrar o quanto isso faz parte do tema.

A principal abordagem do filme para a postura da transexual é algo que se encaixa no clichê da própria postura feminina, talvez até aí o ponto da delicadeza supracitado fazer tão parte do filme, tanto em sua caracterização como fotografai, que está realmente incrível, diga-se de passagem. Mas o fato é que a mulher que Lili almeja ser é a da sua época, e o modelo a ser seguido da década de 1920-30 era aquele que deveria agradar ao homem, de todas as suas formas. O seu "aprendizado" do que era ser mulher espelhou, ela desejando ou não, a época machista e misógina em que ela estava, pois essa era a referência mais esmagadora do que significava "ser mulher". E desconsiderar isso no filme é tirar do mesmo o seu contexto.



Entretanto, ao mesmo tempo, tem-se uma contraposição desse suposto papel ou aspecto feminino em Gerda, quase que como um ponto de resistência natural ou de redenção da produção. Ela é uma mulher lutando para sobreviver no meio artístico que busca o reconhecimento próprio, sem se apoiar no antigo nome de seu cônjuge e sem ter que apelar para aquilo que seria ou não adequado e esperado. E é dessa mesma forma que Gerda age e sua vida pessoal. Por mais que quisesse apoiar Lili por amar o marido, obviamente, ela tem seus momentos de desilusão e raiva. Ela tem uma personalidade forte, tem suas próprias posições e ideais e demonstra isso durante todo o filme. Mas infelizmente, ela não era a regra da época e, por isso, é aceitável (ainda que com ressalvas) que Lili e comporte da forma como ela se comporta.

Embora a Lili se encaixe na visão masculina da mulher com seus gestos e posturas e mesmo o longa pecando em sua profundidade da abordagem das dificuldades sociais que uma transexual enfrentaria nas décadas de 20 e 30, A Garota Dinamarquesa pode ser vista como a porta para que as questões de gênero passem a ser discutidas no cinema. Afinal, esse foi um longa bem produzido, com verdadeiros profissionais engajados em contar a história da provável primeira mulher transexual de que temos notícia. Foi uma produção séria e cuidadosa que não desmereceu nem seus personagens e nem o seu assunto. É se esperar que vejamos mais filmes tratando desse e de outros temas que são tão necessários de serem discutidos, de forma séria e com responsabilidade, na grande indústria cinematográfica.

Trailer



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14 comentários

  1. Eu tive a felicidade de assistir esse filme,e digo, é forte, lindo e polemico. A interpretação do autor Eddie Redmayne foi incrível, me deixou deveras angustiada e emocionada. Vale o Oscar. (apesar que não assisti o regresso pra poder chegar a minha conclusão final)
    ^^
    Ni
    Cia do Leitor

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  2. Amo essa história e o quanto ela tem a ensinar. O filme é muito bem feito e Eddie Redmayne foi, mais uma vez, fantástico em dar vida a Lili. Um filme muito emocionante.

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  3. Olá,

    estou com esse filme tem uns quinze dias, ainda não assisti, vou assistir com a namorada nesse final de semana, parece ser bom, um tema muito delicado e polêmico. www.sagaliteraria.com.br

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  4. Olá,
    Nossa eu simplesmente estou doida para ver esse filme, infelizmente ele esta em poucas salas de cinema aqui em Brasilia, e com horários complicados de se assistir, mas quero dar um jeito.
    Espero também que ele ganhe o Oscar no domingo, sinceramente.
    Ótima critica, parabéns.

    Beijos

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  5. Adorei sua resenha. Eu vi esse filme esses dias e estou completamente afetado pela profundidade da história.É muito delicada e muito intensa. A Atuação dos atores está impecável! Só acho que a Alicia Vikander PRECISA ganhar o Oscar de melhor atriz coadjuvante,pois seu personagem,assim como "Lilly" é muito difícil e ela interpretou com maestria.
    Abraço;

    http://estantelivrainos.blogspot.com.br

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  6. Oie. Tô bem interessada pelo filme e pelo livro, e espero tão logo quanto possível conhecer a obra. Adorei o ponto que você abordou na sua crítica.
    Mesmo hoje em dia, a transexualidade gira muito em torno de padrões machistas, sendo extremamente difícil para as mulheres trans quebrá-los.
    Sempre que uma mulher trans pisa fora do estereótipo de gênero feminino, ela é questionada: se é lésbica pq "virou mulher", se quer ser " machona", pq "virou mulher", e isso é um fato que deve ser mais falado.Muitas mulheres trans ainda se rendem ao estereótipo em busca de sua legitimação na sociedade como uma mulher " de verdade". Mulher não se presta só ao estereótipo, e não é preciso se encaixar nesta falsa caixinha do que é ser feminina pra ser legitimada.

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  7. Oie. Tô bem interessada pelo filme e pelo livro, e espero tão logo quanto possível conhecer a obra. Adorei o ponto que você abordou na sua crítica.
    Mesmo hoje em dia, a transexualidade gira muito em torno de padrões machistas, sendo extremamente difícil para as mulheres trans quebrá-los.
    Sempre que uma mulher trans pisa fora do estereótipo de gênero feminino, ela é questionada: se é lésbica pq "virou mulher", se quer ser " machona", pq "virou mulher", e isso é um fato que deve ser mais falado.Muitas mulheres trans ainda se rendem ao estereótipo em busca de sua legitimação na sociedade como uma mulher " de verdade". Mulher não se presta só ao estereótipo, e não é preciso se encaixar nesta falsa caixinha do que é ser feminina pra ser legitimada.

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  8. Oie
    desde que vi o trailer fiquei encantada, o enredo do filme é super bom e espero com certeza assistir em breve e curtir bastante, adorei a sua resenha

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  9. Nossa que critica incrível. Estou curiosa com este livro desde que vi a divulgação de Portugal, confesso que quero o livro primeiro, a história tem todo esse foco, tenho a dúvida mesmo sobre o preconceito que deveria abordar no filme, afinal naquela época ele era mais pesado.
    Mas em geral acredito que o filme seja uma ótima produção.
    http://kammyriquelme.blogspot.com/
    Xoxo

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  10. Nossa, simplesmente adorei a resenha e o trailer. Estou realmente com medo do eddie ganhar do Leo! Pelo que vi ele é um candidato muito forte!
    Beijos
    Blog Relicário de Papel
    relicariodepapel.wordpress.com

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  11. Olá, adorei sua crítica...estou doida pra conferir o filme. Eddie Redmayne tem se mostrado um ator bem talentoso nesses últimos tempos, mas espero que hoje quem leve a estatueta seja o Leo, coitado...ele merece já há muito tempo, mas ninguém reconhece.

    Beijokas da Quel ¬¬
    Literaleitura

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  12. Oi, tudo bem?
    Quero muito ver esse filme, e a cada elogio, fico mais curiosa. Eddie é realmente um talentoso e versátil ator. Bom saber que o filme consegue abordar o tema da identidade de gênero com sensibilidade
    beijos
    http://meumundinhoficticio.blogspot.com.br/

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  13. Olá, muito boas suas considerações sobre o filme. O Eddie Redmayne parece mais uma vez arrasar nas telonas, e a trama traz um assunto pouco abordado é muito interessante.

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  14. Oi, tudo bem?
    Quero muuuuuito assistir esse filme, mas cadê o tempo?
    O tema do filme é bem interessante!
    BJs

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