O país do racismo estrutural

13:32

Episódio de racismo na Unesp coloca em foco a representatividade negra nas universidades brasileiras




Em 24 de junho deste ano foram encontradas, no Campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Bauru, um conjunto de pichações racistas em um banheiro masculino da instituição. As ofensas foram direcionadas ao professor de Jornalismo e coordenador do Núcleo Negro para Pesquisa e Extensão (Nupe), Juarez Xavier, e às mulheres e aos alunos negros da universidade. A reação a essas manifestações criminosas foi o aumento da discussão sobre o racismo e sobre a presença dos negros nas universidades brasileiras.

O fato dessa presença ser tão insignificante quando confrontada com a razão entre a população negra e a branca é uma clara consequência do sistema educacional brasileiro, que perpetua a desigualdade étnica racial dentro das instituições públicas acadêmicas, assim como de todas as posições de poder e decisões sociais e políticas do país. Perante o assunto, o professor da Unesp, Juarez Xavier, afirmou que "todo o movimento de organização das universidades no Brasil, nas décadas de 10, 20, 30, tem todo um projeto de exclusão. A ideia era de uma universidade eugenista, focada na população branca."

A inclusão da população negra dentro das universidades ganhou certa visibilidade com o sistema de cotas para alunos negros, que busca aumentar o baixo número desses dentro das instituições. Mas o outro lado desse cenário também apresenta desigualdades flagrantes. Segundo estudos iniciados em 2003 pelo Departamento de Antropologia da Universidade de Brasílias (UnB), há, em média, menos de 1% de docentes negros nas salas dos cursos superiores públicos do Brasil.

O professor Juarez lembra ainda que a presença dos negros dentro das universidades só ocorreu a partir da década de 1970 e, portanto, esse é um movimento novo. E o fato de ser recente esse ingresso contribui para que os números de docentes negros e profissionais que se dedicaram a carreira universitária também sejam baixos.

Entretanto, há muitos outros motivos que contribuem para essa realidade e que estão igualmente implementadas na estrutura da sociedade brasileira. Quase que como uma verdadeira cadeia de eventos, pode-se perceber que a segregação, seja essa econômica, social, política ou educacional, que o negro está sujeito historicamente ajuda para limitar as aspirações desse grupo étnico dentro das instâncias da produção de conhecimento e ideias.

As consequências desses problemas são vistas na atualidade e no futuro próximo na própria dinâmica universitária. Além do número de alunos afrodescendentes dentro das universidades públicas brasileiras ainda ser muito menor do que o ideal, a convivência e permanência dentro dessas instituições também se mostram como obstáculos para a integração desses indivíduos.

A falta de representatividade dentro de sala de aula faz com que o próprio ambiente seja hostil e racista e a extensão da vida acadêmica se torna algo muito mais distante. "A falta de representatividade é absurda. Então, não há debate sobre isso: você não se vê representado. Então você não acha que tem espaço e fica tentando se adequar ao branco. Para de almejar algo para você", disse o coletivo Kimpa, que discute os direitos dos alunos negros dentro da Unesp de Bauru.

O conteúdo universitário também é um aspecto que fica prejudicado nessa situação. Com um corpo docente homogêneo e sem o debate de diferentes perspectivas sociais e políticas, o discurso acadêmico torna-se unificado, deficiente e ainda mais excludente. Cenário que ao mesmo tempo reflete as posições e modelos sociais adotados no país desde a criação universitária e influencia na preservação dessas posições, já que as opiniões e ideias acadêmicas são aceitas quase que inteiramente pela sociedade.

Segundo a pesquisa do Departamento de Antropologia da UnB uma modificação dessa realidade só irá se concretizar com a alteração do sistema educacional brasileiro e das próprias concepções sobre o racismo presentes na sociedade. Para que haja mais docentes negros é necessário que haja mais discentes negros assim como o apoio institucional e público para a continuidade desses alunos dentro do ambiente universitário. E para isso deve haver não apenas as cotas para o ingresso na universidade como também políticas públicas e ações que visem a permanência deles nesse ambiente.

Para o professor da Unesp, Juarez Xavier é necessário que ocorra em conjunto uma transformação nas próprias interpretações sobre o racismo presentes na sociedade, o que não é algo fácil . "É difícil você estimular as pessoas a terem uma visão mais ampla sobre a questão do racismo e do ambiente hostil que ele vai provocando para todos os setores sociais."

Entretanto, ele acredita ainda que é impossível o Brasil fugir por mais tempos dessas mudanças, pois há diversas movimentações globais que só podem levar a esse caminho. "Estamos na década do afrodescendente, segundo a Unesco [Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura]. E o Brasil é signatário de todos os documentos que confirmam a necessidade de políticas públicas nesse sentido. Porque elas compreendem que a questão do negro não é um problema do negro e sim da sociedade brasileira. Então, não há alternativa."



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10 comentários

  1. Acho que a falta de representatividade entre os docentes é um mero reflexo dessa falta de representatividade entre os alunos. Se tem pouco aluno, vai ter menos ainda que chegará a ser professor. É quadro muito triste e que, infelizmente, demora a ser alterado. Seguimos na luta e no apoio para que essa mudança se dê o mais rápido possível. Já vemos algumas alterações... que elas sigam de vento em popa! :)

    Infinitos Livros

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  2. Excelente texto, parabéns!
    É um assunto que precisa estar em pauta o tempo inteiro. A representatividade é fundamental, a voz do povo negro precisa ser ouvida e materializada, o movimento negro precisa de mais força e enquanto Educadora e pesquisadora, as barbaridades que vejo das bancadas evangélicas e de direta são apenas para tirar o pouco que a comunidade negra e LGBT vem conseguindo, além das mulheres.

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  3. AMEI o seu texto, você está de parabéns! Precisamos falar disso cada vez mais! Vou compartilhar.
    Um abraço!

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  4. Ótimo texto, mas me bate uma tristeza em hoje em dia ainda precisamos debater assuntos como o racismo, um povo mal direcionado em ideais, em atitudes como essa, é de deixar a revolta falar mais alto, até quando teremos atitudes raivosas como essa, afinal somos todos irmãos ?

    Joyce
    www.livrosencantos.com

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  5. Oláá
    Nossa, é deprimente ainda temos que debater sobre um assunto que deveria nem existir, racismo. Gente, eu nunca vou me conformar até onde o ser humano é capaz, completamente triste.

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  6. Texto absolutamente incrível!
    Acho totalmente revoltante que ainda presenciamos episódios como esses, o mínimo que se espera de uma pessoa que esta cursando o grau superior é que tenha a mente mais cultuada do que as demais, e o que tenho visto é justamente o contrário. Nessa mesma semana aconteceu um caso como essa na minha faculdade envolvendo estudantes de medicina. O que me faz pensar que ainda estamos muito...muito longe de sermos seres evoluídos.
    bjs

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  7. Olá.
    Que post incrível, expõe uma situação que precisa urgentemente ser modificada.
    Quanto mais eu penso que a humanidade evoluiu mais me decepciono quando vejo situações como essa na universidade. Quando as pessoas terão consciência de que cor de pele não faz ninguém melhor que ninguém? Que somos todos humanos e iguais? Essas coisas me deixam indignadas. =/
    Parabéns pelo texto.

    Beijos
    http://aventurandosenoslivros.blogspot.com.br/

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  8. Oi, tudo bem?

    Nossa, achei incrível você abordar isso. Eu faço parte de um coletivo de mulheres na minha faculdade e sei bem o quanto é muito difícil ter apoio da instituição. A verdade é que a maioria das instituições não quer se envolver com essas coisas e acaba gerando episódios bastantes desumanos/preconceituosos. No caso dos alunos, creio que há muitas saídas (como os coletivos, por exemplo), mas no caso deste professor, eu realmente não sei como ele poderia levantar esta questão além de debater isso em aula, mesmo que, algum momento, isso se torne prejudicial a ele, ou ao seu trabalho. Eu acredito muito na representatividade e creio que, embora haja algumas mobilizações na tentativa de mudar isso, ainda há muita escassez, simplesmente porque ou as pessoas têm vergonha, ou acham que não vão mudar nada, ou não querem piorar a situação. O único jeito é dar voz a essas pessoas, e que incomodem a todos, sim. Se está incomodando é porque tá funcionando! :)

    Belo texto, mais uma vez <333

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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  9. Olá!
    Adorei ler seu texto e digo a você que ele salvou o meu dia.
    Realmente nosso país é problemático quanto a questões raciais e outros tipos de preconceito, e isso é uma verdadeira ironia em um país onde grande parte da população é mestiça de várias raças e onde a diversidade de comportamentos, opções e orientações é tão vasta. A palavra para isso é vergonha, sinto vergonha por viver num país onde a população é hipócrita e acredita que sistema de quotas é um benefício e não apenas mais uma forma de apartar um pedaço da população do restante.

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  10. Olá, que texto excelente! Acredito que uma das nossas principais carências é debater este tema, e você fez isso com maestria. Gostei de ler as principais causas sobre a falta de representatividade do negro, pontos que precisam ser mudados. Acho que o diálogo já é um grande avanço. Temos que colocar esse assunto cada vez mais em pauta. Beijos!

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